Tem recaído sobre as costas do marqueteiro Luiz González, da produtora GW, que tradicionalmente atende os candidatos tucanos, a responsabilidade pelo que vem acontecendo com José Serra. Dizem que o marketing do tucano está errado, que Serra deposita confiança demais em González e que este seria um sujeito fechado, teimoso e arrogante. Numa campanha, é natural que os grupos políticos, os partidos, arranquem os cabelos quando seu candidato desaba nas pesquisas; muitas vezes, amigos e familiares do candidato se intrometem, provocando mais confusão. Além disso, o quadro pode oferecer fatos novos, pouco perceptíveis. É preciso fazer pesquisas minuciosas e saber interpretá-las. E há coisas que são óbvias.
A estratégia da campanha de Serra foi enunciada por González em várias entrevistas, e ele até então tinha fama de marqueteiro discreto. A idéia central baseava-se na crença de que Lula não teria um poder assim tão formidável para transferir votos. González argumentava com as últimas eleições para prefeito de São Paulo quando a candidata do PT, Marta Suplicy, foi batida por Kassab. Além disso, dizia, Serra tem currículo, tem história, e quem é Dilma?, perguntava, num tom pedante que fazia lembrar os colonizadores britânicos na época de seu grande império. Os tucanos não só menosprezaram o poder de comunicação de Lula como foram abalroados pelo marketing do PT que capitaliza em cima da boa fase da economia. Como Gonzalez vê a situação agora? Mergulhado em números, não parece disposto a dar o braço a torcer. Acompanhe um pequeno artigo que saiu no O Globo de hoje:
São Paulo – No olho do furacão desde que as últimas pesquisas de intenção de voto mostraram a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, com cerca de 20 pontos à frente do candidato do PSDB , José Serra, o jornalista paulistano Luiz Gonzalez, 57 anos, coordenador de comunicação e principal estrategista da campanha tucana, é um sujeito visivelmente irritado com as críticas – que ele considera infundadas – ao seu trabalho.
À frente de uma equipe de 300 pessoas e uma rotina que começa cedo e entra pela madrugada, por conta dos hábitos notívagos do seu candidato, o marqueteiro não dispensa opiniões, especialmente numa hora tensa como agora. Mas as quer respaldadas em fatos.
À tentativa de responsabilizá-lo pela queda de Serra, responde com fatos e números das campanhas das quais participou. Os levantamentos de sua equipe não reproduzem a rejeição a Serra captada pelos institutos de pesquisa. O que significa que o rumo não muda por conta do escárnio petista, das avaliações de eventuais marqueteiros ou do fogo amigo de políticos do PSDB e aliados.
De tucanos, ele entende bem. São 16 anos administrando campanhas do partido, desde que em 1994 fez a vitoriosa comunicação de Mario Covas na disputa pelo governo de São Paulo. Hoje, a Lua Branca, agência de propaganda tocada atualmente por seus dois filhos, cuida de contas do governo do estado e do município de São Paulo, contratos que ultrapassam os R$ 150 milhões.
Avesso a entrevistas formais, Gonzalez usa sua experiência de 20 anos de jornalismo e 21 anos em campanhas políticas – começou em 1989, quando saiu do Departamento de Jornalismo da TV Globo para dirigir a campanha para a TV de Ulysses Guimarães à Presidência – para mandar seus recados. Um deles, dizem integrantes do comando da campanha, é que o caminho até as eleições é longo, a imagem do candidato é construída passo a passo, o projeto mira o segundo turno e seu eixo estratégico – o confronto dos currículos e das qualificações de Serra e Dilma – permanece, mas será monitorado para que se façam acertos táticos.
Gonzalez cita pesquisas que, em agosto e setembro de 2006, previam vitória acachapante do então presidente Lula sobre o candidato Geraldo Alckmin, do PSDB, no primeiro turno. Os números variavam entre 50% e 51% para Lula e algo entre 25% e 29% para Alckmin. O primeiro turno das eleições terminou com 7 pontos percentuais de diferença. Por isso, suas decisões são tomadas com os números que tem à mão, captados por pesquisas qualitativas diárias em oito estados, testes de reação com eleitores antes e depois da divulgação de cada peça, e 700 entrevistas por dia.


Quem ri por último? Publiquem o comentário do Josias de Souza sobre esse plano de serra e seu marketeiro de derrubarem dilma pelo cotejo de biografias: “Josias de Souza: Numa tentativa de fugir da armadilha plebiscitária urdida por Lula, José Serra idealizara uma campanha centrada no cotejo biográfico. Em vez de um embate do tipo Era Lula X Fase FHC, o tucano promoveria a comparação de sua biografia com a de Dilma Rousseff.
Serra imaginara que, em pouco tempo, convenceria os eleitores de que é mais preparado do que a rival para gerir o legado de Lula, aperfeiçoando-o.O Datafolha informa que o plano fez água. Em maio, a maioria do eleitorado achava Serra (45%) “mais preparado” do que Dilma (29%).Hoje, a curva se inverteu. Agora é Dilma (42%) quem é vista como “mais preparada” do que Serra (38%)”.